domingo, 20 de dezembro de 2009

A infância da criança negra


A infância é uma construção histórica. O mundo da criança nem sempre existiu. Por muito tempo não houve separação entre o mundo infantil e o mundo adulto, estes se resumiam em apenas um. Desta forma a criança não era detentora de direitos específicos as suas individualidades.

No período Renascentista “nasce” o sentimento da infância, porém este sentimento não era uniforme e homogêneo. Salienta-se que, na maioria das vezes, o sentimento da infância estava “reservado” às elites, que dispunha dos meios necessários para garantir tratamento diferenciado com saúde, educação e cuidados para com os seus filhos. A classe pobre não podia gozar deste sentimento, haja vista que necessitava que seus filhos, tão logo conseguissem se mover sozinhos, a ajudasse nas tarefas e no trabalho<1>. Kramer (1995) nos aponta que a inserção social diversa da criança impõe diferentes concepções de infância. Assim, é impossível universalizar este conceito. “Sendo essa inserção social diversa, é impróprio ou inadequado supor a existência de uma população infantil homogênea, ao invés de se perceber diferentes populações infantis com processos desiguais de socialização.” (Op. cit., p.15)
No Brasil também havia um paradoxo entre a infância dos filhos das elites e a infância da criança pobre.

A criança negra sofreu as mais duras penas impostas pelo sistema escravista. Ela não era sujeito de direitos e por vezes, nem mesmo de piedade. Eram vitimas da mortalidade infantil devido às precárias condições que eram submetidas pelos seus donos. Tinham o seu “direito” de amamentar cerceado, pois, em muitos casos, suas mães eram alugadas ou cedidas para servirem de ama-de-leite para crianças brancas. Tão logo se tornassem “úteis” eram obrigadas a começar efetivamente o trabalho compulsório. As negrinhas e os negrinhos eram brinquedinhos para as crianças brancas e até mesmo para o adulto.

Assim era a vida da criança negra de 0 a 6 anos: negação, não-ser, “peça” temporariamente inútil...

A situação não mudou quase nada com a promulgação da Lei do Ventre Livre, que estabelecia que seriam livres os filhos dos trabalhadores escravizados nascidos no Brasil a partir da data de sua promulgação.

Art. 1o: Os filhos da mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei, serão considerados de condição livre.

§1o: Os ditos filhos menores ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos. Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá a opção, ou de receber do Estado a indenização de 600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos. No primeiro caso o governo receberá o menor, e lhe dará destino, em conformidade da presente lei. A indenização pecuniária acima fixada será paga em títulos de renda com o juro anual de 6%, os quais se considerarão extintos no fim de trinta anos. A declaração do senhor deverá ser feita dentro de trinta dias, a contar daquele em que o menor chegar à idade de oito anos e, se a não fizer então, ficará entendido que opta pelo arbítrio de utilizar-se dos serviços do mesmo menor.

Conforme podemos observar na letra da Lei, os senhores donos das mães escravizadas eram obrigados cuidar dos ingênuos, como eram chamados os “beneficiários” desta lei, até os oito anos de idade. Porém esses cuidados não existiam, a criança continuava acorrentada ao sistema escravista, pois não há como ser livre com pais escravizados. Ainda por cima, a criança livre tinha que trabalhar para o senhor até os 21 anos, para pagar a sua libertação.





Esta lei também era responsável pela desestruturação da família negra, pois quando as mães eram vendidas somente os filhos “beneficiários” desta lei podiam acompanhá-la.

Uma outra face perversa das conseqüências desta lei: muitos senhores abrigavam as mães a abandonarem os seus filhos ou entregá-los à Roda dos Expostos, instituição que atendia crianças abandonadas. O índice de mortalidade nesta casa era altíssimo, de cada 100 pessoas que entravam, 80 morriam antes de completarem um ano.

A abolição oficial da escravatura pouco, ou quase nada, mudou na vida das meninas e meninos negros. Estes continuaram sendo os parias da sociedade, “cidadãos” sem voz, impedidos de usufruir a infância.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A criança negra sofre mais no Brasil


Para cada criança branca vítima da violência urbana no Brasil, duas outras negras são mortas, alerta o Fundo para Infância e Adolescência (Unicef).
A estatística faz parte de um levantamento feito pelo braço brasileiro da agência da ONU para chamar atenção sobre a dupla fragilidade das crianças negras do país.
Usando dados do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD), a Unicef traçou um desenho sombrio de como o racismo afeta futuras gerações de brasileiros e compromete “setores-chave do desenvolvimento”, nas palavras da oficial de projetos da agência, Helena Oliveira Silva.
Segundo o PNUD, a taxa de homicídios registrada entre negros foi o dobro da registrada entre brancos no ano passado. Em 2000, de acordo com o Datasus, em média 14 adolescentes entre 15 e 18 anos morreram por dia no Brasil – destes, 70% eram negros.
O levantamento mostrou também que as crianças negras estão em pior situação na escola e no mercado de trabalho.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Polícia prende estudantes por racismo em Ribeirão Preto

Três estudantes de medicina de uma universidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, foram presos no início da manhã deste sábado, após terem agredido um homem de 55 anos numa das principais avenidas da cidade.

Os jovens atingiram um auxiliar de serviços gerais com um tapete de carro enrolado, enquanto o chamavam de "negro", aos gritos. Por isso, foram presos em flagrante por racismo e lesão corporal.

O auxiliar de serviços gerais foi abordado por volta das 6h, quando estava em uma bicicleta a caminho do trabalho. Um dos rapazes, com o tapete enrolado, desferiu um golpe nas costas do homem e gritou "negro". Segundo testemunhas, os três vibraram com a ação. Pouco depois, dois vigilantes, que saíam de um evento e testemunharam a agressão, conseguiram deter os estudantes e levá-los à polícia.

O crime de racismo é inafiançável no Brasil e prevê pena de um a três anos de prisão. Os advogados dos jovens, no entanto, tentam obter a liberdade provisória dos rapazes. Segundo o delegado Mauro Coraucci, que estava de plantão, os três seguiriam para a cadeia de Santa Rosa de Viterbo, pois o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Ribeirão Preto não recebe presos no fim de semana.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Manifestos Pela garantia dos direitos das comunidades remanescentes de quilombos





As entidades abaixo assinadas vêm a público alertar para o risco de retrocesso na garantia dos direitos das comunidades quilombolas. Após serem alvo de intensos ataques veiculados pela imprensa que questionou a legitimidade de seus direitos e sua luta, os/as quilombolas correm o risco de terem seus direitos territoriais cerceados por meio da aprovação de nova instrução normativa que altera o texto da Instrução Normativa 20/2005 do Incra, que estabelece o procedimento administrativo para identificação e titulação dos territórios quilombolas.



A justificativa dada pelo governo para a modificação da instrução vigente baseia-se na necessidade de evitar que iniciativas em curso, junto ao Judiciário e ao Congresso Nacional, suspendam ou anulem o Decreto 4.887/2003 que regulamentou o processo administrativo de reconhecimento dos direitos territoriais previstos no Art. 68 do ADCT da Constituição Federal.



A proposta de nova instrução elaborada pelo governo regride em relação ao estabelecido na IN Incra 20/2005 quanto às concepções sobre identidade quilombola e conceito de território, aos mecanismos para concertação de interesses de Estado e à solução de conflitos que se sobreponham aos territórios quilombolas, à efetividade e celeridade processuais para obtenção do título de propriedade.



Discordamos que a solução para enfrentar as ameaças em curso seja retroceder na garantia de direitos por meio da alteração da instrução normativa do Incra. Na defesa das normas vigentes, temos recentes decisões do Judiciário que reconhecem a auto-aplicabilidade do artigo 68 do ADCT da Constituição Federal e a constitucionalidade do Decreto 4.887/2003.



Preocupado em cumprir a determinação de consulta prévia estabelecida pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais, o governo federal convocou uma consulta aos quilombolas entre os dias 15 a 17 de abril, em Luziânia, Goiás, para discutir a nova norma.



Mesmo discordando do conteúdo proposto para a nova instrução e do procedimento pouco democrático de sua elaboração que não envolveu a sociedade, os quilombolas por meio da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) aceitaram participar de consulta. Cerca de 250 quilombolas e 12 assessorias participaram do encontro, reafirmando o caráter deliberativo do evento e apresentando propostas concretas para a nova instrução normativa.



Ressaltamos que a Convenção 169 da OIT determina no seu Art. 6º(2) que: "a consulta deverá ser efetuadas com boa fé e de maneira apropriada às circunstâncias, com o objetivo de se chegar a um acordo e conseguir o consentimento acerca das medidas propostas". No entanto, foram poucos os dispositivos consensuados entre governo e quilombolas.



A maioria das propostas de alteração da atual IN Incra 20/2005 sugeridas pelo governo não obtiveram o consentimento dos quilombolas. Por outro lado, as mais importantes propostas dos quilombolas não foram acatadas tais como: a não obrigatoriedade da certidão da Fundação Cultural Palmares para início do processo de titulação e a adequação dos quesitos do relatório destinado a identificar o território a ser titulado.



De acordo com o governo, as propostas de alteração não consensuadas na consulta, serão analisadas pessoalmente pelo Presidente da República e os Ministros das pastas afins. Neste sentido, as organizações abaixo assinadas vêm a público reivindicar que as propostas apresentadas pelos quilombolas sejam realmente consideradas, e mais, aprovadas pelo governo federal.



A não observância, pelo governo brasileiro, dos requisitos de validade da consulta estabelecidos pela Convenção 169 da OIT – chegar a um acordo e conseguir o consentimento acerca das medidas propostas – colocará em risco a validade da própria consulta bem como dos resultados que objetivava produzir.






Brasil, 6 de maio de 2008

Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG)

Associação de Apoio às Comunidades Afrodescendentes (AACADE)

Associação de Combate aos Poluentes
Associação de Consciência à Prevenção Ocupacional

Associação de Proteção ao Meio Ambiente de Cianorte / Paraná

Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia (AATR -Ba)

Associação Nacional de Ação Indigenista (ANAÍ )

Associação Terra Laranjeiras (ATLA )

Centro de Cultura Luiz Freire

Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (CEDEFES)

Centro de Cultura Luiz Freire

Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN-MA)

Centro de Educação Popular do Instituto Sedes Sapientiae (CEPIS)

Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA)

Centro de Estudos Bíblicos no Rio Grande do Sul (CEBI-RS)

Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos (COHRE)

Centro pela Justiça e Direito Internacional (CEJIL)

Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Comissão Pastoral da Terra - Regional Maranhão

Comissão Pastoral da Terra Norte Minas

Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP)

Conselho Nacional de Iyálórisás, Egbomys e Ekedys Negras

Coordenação Continental do Grito dos Excluídos/as

Coordenação Estadual das Comunidades Negras e quilombolas (CECNEQ)

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)

Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE)

Confederação Nacional das Associação de Moradores (CONAM)

Educafro

Dignitatis

Fórum Nacional da Reforma Urbana (FNRU)

Instituto Socioambiental (ISA)

Instituto de Assessoria as Comunidades Remanescentes de Quilombo (IACOREQ)

Instituto de Estudos Direito e Cidadania (IEDC)

Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc)

Instituto Terramar

Justiça Global

Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE)

Fórum em Defesa da Zona Costeira do Ceará

Fórum Estadual de Mulheres Negras/RJ

Fórum de Mulheres Negras do Estado de São Paulo

Fundação de Direitos Humanos Bento Rubião

Grupo Ação, Mobilização e Desenvolvimento - ABAKÊ

Grupo de Estudos Rurais e Urbanos/PPGCS/UFMA

Grupo de Trabalho Amazônico (GTA)

Grupo de Trabalho sobre Regularização de Territórios Quilombolas em Minas Gerais

GT Combate ao Racismo Ambiental

GT Ambiente AGB-Rio e AGB- Niterói /Associação dos Geógrafos Brasileiros RJ

Instituto Polis

Koinonia Presença Ecumênica e Serviço

Movimento Negro Unificado - Seção do Rio Grande do Sul

Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

Observatório Negro-Recife/PE.

ORIASHÉ - Sociedade Brasileira de Cultura e Arte Negra/SP

Organização Consciência Negra do Maranhão (CNEGRA)

Plataforma DhESCA

Projeto Territórios Quilombolas no Espírito Santo

Rede de Informação e Ação pelo Direito a Se Alimentar (FIAN Brasil)

Rede de Integração Verde

Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

Relatoria Nacional para o Direito Humano ao Meio Ambiente

Sindicato dos Advogados do Estado de São Paulo

Sociedade Maranhense de Direitos Humanos

Terra de Direitos

União Nacional de Moradia Popular (UNMP)
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Nós da ANNEB - Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil estamos nesta luta com os nossos irmãos.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Extermíno da população negros do Brasil

Estudo mostra que número de negros assassinados é o dobro de brancos
Da Agência Câmara
Em depoimento à CPI da Violência Urbana, o economista Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, divulgou
estudo que mostra que o número de negros assassinados no Brasil é duas vezes maior que o de brancos, apesar de cada grupo
representar cerca de metade da população do País.
A conclusão é baseada em dados do Sistema Único de Saúde (SUS) referentes aos anos de 2006 e 2007. Nesses dois anos, cerca
de 60 mil negros foram assassinados e cerca de 30 mil brancos. As pesquisas mostram que entre as crianças e jovens de 10 a
24 anos se constata a maior diferença entre os homicídios de negros e brancos.
Marcelo Paixão afirmou que os jovens negros estão mais expostos e que as desigualdades só aumentaram nos últimos anos. "É
preciso identificar que as causas disso estão relacionadas ao racismo institucional, às políticas de segurança pública que
ainda entendem a população negra como inimiga do estado, à baixa qualidade da escola desses jovens, que está relacionada
com uma maior exposição à pobreza; quer dizer, é um círculo de desgraças."
Ele afirmou que o atual governo não tem disposição política para enfrentar o racismo nas políticas de segurança pública.
Para o deputado Luiz Alberto (PT-BA), autor do requerimento de convocação do depoente, o atual governo não adota políticas
de cunho racista. Ele sustentou que as instituições brasileiras foram forjadas em uma história de escravidão, e, portanto,
foram contaminadas por uma visão racista da sociedade brasileira.
Auto de resistência
A presidente do Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra da Bahia, Vilma Reis, trouxe à comissão um dossiê elaborado
pela campanha "Reaja ou será morto, reaja ou será morta". A campanha, iniciada em 2005 na Bahia, denuncia a matança de
jovens, na sua maioria negros, por agentes do Estado e paramilitares.
Ela lembrou que, a partir de 1969, com a vigência do AI-5, as polícias militares passaram a utilizar o chamado "auto de
resistência" como o álibi para a prática de assassinatos, sob pretexto de resistência à autoridade policial. Ela estimulou
a CPI a instigar os três Poderes a acabarem com o auto de resistência, o que para ela tiraria o álibi de policiais que se
sentem livres para matar com a certeza de que não vão ser investigados.
"O auto de resistência, no nosso entendimento, é uma licença para matar, porque as pessoas estão sendo executadas
sumariamente, sem qualquer chance de defesa. Quando a perícia é feita, é verificado que essas pessoas estavam em baixo de
cama, dormindo, que a casa foi destelhada, que a casa foi invadida, e elas morreram com um tiro de misericórdia."
Segundo Vilma Reis, os assassinatos de negros se estendem a Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, São Paulo, Goiás
e outras metrópoles do País.
Ela denunciou também os programas regionais de televisão que violam direitos humanos ao expor pessoas sob custódia do
Estado à execração pública, promovendo sua condenação sem que tenham sido julgadas. Em sua opinião, a proibição a esses
tipos de programas não é censura.
A presidente defendeu ainda que os recursos do Pronasci não sejam utilizados na compra de armamentos, viaturas e construção
de novos presídios.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Lançamento do Selo Negritude Cristã


Estamos lançando o Selo Negritude Cristã que terá o objetivo de publicar livretos que serão usados para a divulgação dos assuntos que temos tratados no Movimento Negro Evangélico. Neste dia 04 de dezembro, em comemoração ao final da Senecon - semana evangelica da consciência negra, estaremos lançando o livreto do Hernani Francisco. Um livreto que ajudará muito as comunidade a ser verem na luta contra o racismo e contra a discriminação de negros e negras no Brasil . Logo depois, estaremos lançando outros livretos com a mesma temática, mas com assuntos diferenciados.

O selo é uma ação da RONE - Rede de organizações negras evangelicas.


Que o Senhor nos abençoe neste empreendimento.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Notícia de Última Hora: “O público pede a morte de Helena”





Passei por uma banca hoje, dia 19 de outubro, e vi uma noticia numa dessas revistas que falam sobre novelas, que destrincham as vidas dos artistas, etc., e tal. Essas revistas que a gente não sabe por que existem. Ou que a sabe mais prefere esquecer. Esses lixos que quase não tem utilidade. Mas, são essas revistas que vedem até deixar os editores milionários. De vez em quando às lemos, quando esperando para sermos triturados com aquele motorzinho dos dentistas ou na espera do médico que vai dizer que necessitamos de exames esquisitos. Lá estão aquelas revistas. Elas olham pra nós como que pedindo para que as abramos. Não resistimos e começamos a ler, se bem que a gente olha mais as fotos, e descobrimos um monte de inutilidades que fazem parte das vidas dos artistas que parecem não ter vidas normais, pois só vivem de glamour ou da necessidade de estarem em algumas fofocas.

Mas, olhei na banca e vi a noticia terrível: “O publico pede a morte de Helena”. Vi que não se tratava de alguém que será apedrejada ou esquartejada pelo povo como nos tempos em que as moças eram consideradas bruxas por pensarem diferente em algumas questões. Mas, se trata, na realidade, da Helena da novela. Que novela mesmo? Bem, uma dessas que passam na Globo que tem atriz Tais Araújo, uma negra linda por sinal, interpretando a protagonista.

Fiquei pensando sobre a motivação de matar a pobre coitada. Não a Tais, mas a Helena. O que ela fez pra merecer isto? Que crime cometeu? Será que a Taís Araújo não está fazendo o trabalho direitinho? Mas, ninguém quis matar a Chica da Silva quando a Taís, a mesma negra linda que faz a Helena, a interpretou. Ah! Desculpe-me a Chica da Silva não passou na Globo. O que aconteceu então com a Helena que todo mundo quer matar? Sei lá.

A Helena é o xodó do autor Manoel Carlos. Uma personagem contracenada por muitas atrizes importantes. A Helena é a protagonista. E tudo rola em torno dela. Estou certo? Espero. Mas, diferente de todas as épocas essa helena é um pouco diferente. É a Tais Araújo. Uma negra que já sabe o seu lugar. Mas, incomoda o público que a quer matar a Helena. Será por quê? Qual a real motivação de quererem matar a Helena? Não. Não querem ferir, pelo menos em tese, a Taís, só querem matar a Helena.

Quero pensar em algumas motivações. Uma artista negra fazendo protagonista de uma novela das oito na TV Globo não está sendo muito aceito por este público que quer matar a Helena. Talvez, isto mostre a real cara deste país que diz não ser um país racista. Deve incomodar a muitos a certeza de que este país pode ou já esteja mudando e que muitos negros já podem se ver como referência em diversas áreas. Isto deve incomodar aqueles que não desejam ver os negros em pé de igualdade neste país, pois sabem que em menos tempo que se imagina isto será realidade incontestável. Não por bondade de quem detém o poder, mas, e principalmente, pela luta e resistência da população negra nesta nação.

Li uma vez numa dessas revistas enquanto esperava o tal motorzinho do dentista que a Tais Araújo, aquela negra linda, disse gostar de fazer pessoas ricas. Interessante que ela respondia a alguns companheiros do Movimento Negro que a criticava por fazer gente rica como se não tivéssemos pessoas negras ricas e de classe média entre nós. Mas, talvez, isto também incomode um pouco o público que deseja “matar a Helena”, coitada. Onde já se viu negros sendo mostrados na TV Globo como pessoas ricas? Aliás, pelo que vi em algumas cenas, não são poucos os ricos negros da novela. Embora saibamos que a população pobre e miserável desta nação seja negra, é bom também perceber que há uns negros que ascenderam socialmente atingindo lugares importantes. Bom seria se todos que já entraram na “casa grande” não esquecessem dos da “Senzala”. Mas, infelizmente, a maioria esquece e tende a oprimir ou a enganar os próprios negros.

Ah! Este público que “quer matar a Helena” não aceita uma negra com todo o poder e dinheiro que tem a Helena contracenada pela Taís Araújo. Talvez isto os incomode bastante, pois o comum são os negros na senzala da miséria e da pobreza.

Depois da “cor do pecado” que tentaram dizer ser a novela de uma protagonista negra, mas que não era a única porque parecia ter várias protagonistas, além do titulo um tanto estranho. Agora não. Agora é a Helena. O nome da novela a gente nem se lembra. O importante é que a negra chama-se Helena. Mas... é uma negra. Como se expressam os racistas.

E aqueles que patrocinam a novela, o que devem achar? Será que estão vendendo bem? Porque se a novela não está indo tão bem o dinheiro gasto na propaganda, no Marketing pra ficar mais show, vira prejuízo. Então, o melhor é ajudar a galera a “matar a Helena”. Ainda mais se essa Helena é uma negrinha metida a besta. Não que a Taís o seja. Mas, quem sabe a tal Helena?

Pois é, já estão querendo matar a Helena! Mal começou a novela com uma atriz negra protagonista que já querem matar a personagem. Talvez isto fale muito mais do que somos como nação brasileira. Portanto, vamos salvar a coitada da Helena. Porque assim estaremos salvando este país de si mesmo.